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Você sabe o que a gastronomia mineira tem de especial?

Fogão à lenha, panelas de pedra sabão, gamelas de madeira e tachos de cobre! Neste post você vai descobrir que não só utensílios tornam a gastronomia mineira tão especial.

Você verá também a centralidade do alimento na cultura regional. Ele é o elemento agregador das relações familiares e sociais. Nesse contexto, não importa se alguns dos pratos tradicionais mineiros aparecem nos cardápios de outros estados brasileiros. O importante é o modo como eles são feitos em Minas, os rituais da sua preparação, o oferecimento e o significado. São os sabores, saberes e fazeres, passados de geração em geração desde o século XVII, que fazem toda a diferença!

Para que você tenha informações fáceis de encontrar, fizemos um sumário. Caso queira ir direto para uma seção específica do texto, basta clicar em um dos links abaixo: 

Hábitos alimentares

A identidade cultural dos mineiros foi forjada durante os séculos XVII e XVIII com a contribuição de índios, negros e portugueses. Essa identidade se manifesta nas relações familiares, nas festas religiosas, na hospitalidade e, sobretudo, nos hábitos alimentares.

A gastronomia mineira é um dos principais valores da sua cultura. A hospitalidade, intrínseca do “ser mineiro”, é manifestada, principalmente, na mesa: na cozinha tradicional, e no costume de receber visitas com mesa farta. Nesse cenário, a boa prosa, o café, o queijo Minas, as quitandas e a doçaria típica estão sempre presentes, ainda hoje, nas casas mineiras, em especial, nas do interior do estado. As reuniões de família são feitas em volta de uma mesa farta. Nas festas, a comida é elemento central e agregador.

É importante destacar que os pratos tradicionais mineiros não estão presentes apenas nos restaurantes especializados. Eles fazem parte do cotidiano das pessoas. A mesa farta, idem. “- Põe água no feijão que estou chegando!” E a comida, já pronta, sempre dá para mais um ou dois. As cozinhas mineiras são grandes. Reúnem pessoas em volta do “fazer”. É social, é cultural.

As contribuições dos índios para a gastronomia mineira foram principalmente sua habilidade de caça e coleta. Foram eles que introduziram o uso do milho e da mandioca no cardápio mineiro. Desta última eles faziam farinha e bebida alcóolica.

Os negros, escravos, não tinham acesso à carne de porco e de galinha. Sua alimentação era mais pobre que a dos demais. Adeptos da caça, os negros incorporaram à sua dieta as carnes de tatus, lagartos e capivaras. A cozinha africana privilegiava os cozidos, onde o caldo é um item importante. Os negros introduziram também a banana, o café, a pimenta malagueta e o inhame. Todos esses hábitos foram incorporados pelo povo de Minas.

Os portugueses trouxeram de suas colônias frutas e legumes e formaram as primeiras hortas “fundo de quintal”. A manga veio da Índia, o quiabo, da África e a couve, de Portugal. Eles trouxeram alguns animais domésticos, como galinhas, gansos, patos e gado suíno e bovino. Fizeram queijos. O arroz, a cana de açúcar, o trigo, a cebolinha e o alho também foram contribuição deles. Os portugueses compartilharam o gosto pelo sal e ensinaram a salgar a carne para conservá-la. Os portugueses revelaram ainda o açúcar, pelo qual os mineiros se apaixonaram de imediato. Assim foi introduzida a sobremesa nos seus hábitos alimentares. De temperos eles trouxeram consigo o cravo, a erva-doce, a canela e o alecrim.

Dois hábitos tradicionais ainda se mantém: o primeiro, é o de se servir um copinho de cachaça ao início das refeições, mas só para os homens. Mulheres não bebiam cachaça, pelo menos, não em público. O segundo é o de servir um cafezinho após a sobremesa. Se tiver um pedacinho de broa de fubá com queijo para acompanhar, aí fica perfeito!

Origens da gastronomia mineira

A era da escassez

Pode-se dizer que a gastronomia mineira foi construída em dois tempos: o da escassez, durante o ciclo da mineração, no século XVII, e o da fartura, com a ruralização da economia, no século XIX.

No século XVII os alimentos disponíveis eram aproveitados ao máximo devido à dificuldade em obtê-los. Os importados, além das dificuldades de transporte pelas montanhas em lombos de burros, eram altamente taxados pela Coroa portuguesa. No caso de Minas, por causa do ouro, a fiscalização era severa. O estado vivia um tanto isolado do restante do país, principalmente das metrópoles, Rio de Janeiro e São Paulo. Não havia estradas, apenas caminhos.

As pessoas viviam, por isso, da coleta, da caça e da pesca. Havia também as roças deixadas por índios e bandeirantes. Os portugueses contribuíram com a implantação de hortas domésticas e criação de animais pequenos, como as galinhas e os porcos. Muitas vezes havia também umas poucas vacas que davam o leite e a manteiga. A criatividade e a variedade de pratos da gastronomia mineira em torno de poucos ingredientes vêm dessa época de escassez. “Cozinha de fundo de quintal” – essa era a cozinha de Minas. Ainda hoje essa expressão é utilizada para designar geleias e conservas feitas em casa.

Com o excedente do leite das vacas, fazia-se o queijo. Era a forma de conservá-lo para chegar até um ponto de venda próximo das atividades mineradoras.  Esse queijo é o antepassado do queijo minas artesanal. Ainda hoje os queijos mineiros meia cura ou curados são feitos com mesma receita básica deixada pelos portugueses no século XVII.

O cultivo e o hábito de tomar café também vêm dessa época de escassez. Os tropeiros, na volta da viagem para entrega do ouro, traziam grãos de café que eram plantados no caminho. Minas Gerais se tornou o maior produtor de café no País.

Do fundo do quintal vieram as compotas de frutas, mais apreciadas do que as frutas in natura. Para a confecção dos doces, os engenhos locais forneciam rapadura, melado e açúcar. O milho e a mandioca eram os principais ingredientes da gastronomia mineira dos séculos XVII e XVIII.

A era da fartura

Os pratos, originalmente simples, do século XVII e inícios do século XVIII, foram ganhando ingredientes e dicas especiais. Durante muitos anos os condimentos habituais eram o sal, a cebola, a cebola de cheiro, o alho, o urucum, o coentro e as pimentas malagueta e do reino. Com o tempo, outros temperos foram sendo incorporados e, de forma habilidosa, o povo enriquecia a culinária da região. As receitas passavam de pais para filhos, porque em Minas, cozinha não é lugar só para mulheres. Os mineradores e tropeiros cozinhavam para si e o costume perdurou.

Com o advento do século XIX deu-se a concentração da vida econômica e social nas fazendas. Essa mudança sucedeu ao declínio das minas de ouro e durou do final do século XVIII até a primeira metade do século XX. Com essa mudança, trouxe aos mineiros fartura de alimentos. A criação extensiva de gado leiteiro proporcionou uma fartura de leite nunca vista. Estradas foram construídas e os gêneros alimentícios importados ou de outros estados passaram a chegar de forma regular.  A chegada do arroz e do trigo contribuíram drasticamente para a mudança de alguns hábitos alimentares. Até então, o feijão era comido com angu. Hoje, come-se o feijão com arroz, a não ser em alguns pratos típicos, como o frango com quiabo e angu.

Grande parte dos doces e quitandas tradicionais da gastronomia mineira são característicos dessa era de fartura.

Os ovos, por exemplo, antes tão escassos, eram utilizados apenas no consumo diário das pessoas. Por isso, na era da escassez, a predominância nas sobremesas eram as compotas de frutas colhidas nos quintais. Com a abundância de leite, de ovos e de açúcar no século XIX, as sobremesas se diversificaram e se enriqueceram. Os queijos passaram a compor as sobremesas com os doces de frutas. A abundância de queijos, e mesmo de leite e ovos, deu origem a novas receitas. Além do pão de queijo e da broa de fubá de canjica, surgem o doce de leite e a ambrosia.

A presença do café nos hábitos alimentares se tornou permanente. Na verdade, o mineiro toma vários cafezinhos ao longo do dia. O bule em cima do fogão a lenha faz parte do cenário da cozinha mineira do século XIX. Sempre quentinho, ele é, até os dias de hoje, servido no café da manhã, acompanhando o pão. Do século XIX até meados do século XX contava-se apenas com as quitandas.

A centralidade da carne de porco na gastronomia mineira

A carne de porco, criado nos quintais, era a mais consumida até meados do século XIX. Ainda hoje ela predomina no cardápio dos pratos tradicionais da gastronomia mineira.

Com a lógica da economia dos tempos de escassez, aproveita-se, até hoje, tudo do porco: da pele, faz-se torresmo; da gordura, banha para cozinhar e também torresmo; do mocotó, faz-se caldo; do sangue, chouriço; das tripas, linguiça e chouriço; os pés, as orelhas, o rabo e o focinho são cozidos com o feijão. O miolo vira omelete. Os miúdos (rim, fígado, língua, coração, bofe) são cozidos juntos em pedaços. Esse prato chama-se frussura de porco.

As carnes de porco assadas, como a leitoa e o lombo, eram pratos de festa, de domingos e de visitas. Acompanhavam essas carnes a farofa, feita de farinha de mandioca. No dia a dia predominavam os cozidos, servidos com feijão, angu, legumes e verduras. Era comum também servir a carne cozida com legumes ou grãos, como a costelinha de porco com canjiquinha, por exemplo.

O pernil traseiro podia também ser assado, mas as formas mais comuns de aproveitamento deles, tanto o traseiro quanto o dianteiro) eram a linguiça e a carne de lata. Essa última era a forma de conservação da carne em pedaços maiores que os de um cozido. Esses pedaços são fritos até ser extraída toda a água da carne. A seguir são mergulhados em banha de porco e armazenados por até seis meses.

O dia de matar um porco era movimentadíssimo nas casas de fazenda. Além da pessoa que matava e sangrava o porco, era necessário alguém para abri-lo e porcioná-lo.

Na cozinha, várias das mulheres dos camaradas (homens que vieram a substituir os escravos) vinham para ajudar. Tudo tinha que ser processado no mesmo dia porque não havia geladeiras nem freezers: fritar os pedaços de pernil; picar e temperar pedaços pequenos de pernil, misturar um pouco da gordura e “encher” as linguiças que eram imediatamente colocadas em varais acima do fogão de lenha;  temperar o sangue e colocar nas tripas para o chouriço; cozinhar no feijão as orelhas, os pés, o rabinho e o focinho; fazer uma omelete com o miolo para servir já no almoço. As pessoas que vinham ajudar levavam alguma coisa em troca do trabalho. Um dia de trabalheira!

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Linguiças em vara acima do fogão de lenha, para defumar – Foto: Arnaldo Silva, @conhecaminascm
Todas essas iguarias ainda fazem parte do cardápio tradicional de comida mineira, sendo feitas da mesma forma.

A carne de frango ou galinha também era uma constante no cotidiano das pessoas no decorrer dos séculos XVII e XVIII.  E, como com o porco, da galinha tudo se aproveitava. Assim como a carne de porco, a carne de galinha assada era para domingos, dias de festa e de visita. No dia a dia a carne era cozida, às vezes junto com legumes, sendo o mais comum, o quiabo. Outro prato comum era o frango ao molho pardo, molho preparado com o sangue do animal. A comercialização do sangue foi proibida pela fiscalização sanitária durante o século XX, mas ainda hoje o prato é muito apreciado. A galinha é morta no local de sua preparação. Ambos os pratos citados são servidos com angu de fubá.

A carne bovina era escassa durante os séculos XVII e XIII. Vinha das regiões criadoras do norte de Minas. Para sua conservação durante a viagem, era necessário salgá-la. A farinha de mandioca servia de complemento. A carne salgada, ou de sol como é mais comumente chamada, ainda faz parte do cardápio da gastronomia mineira. É servida em forma de paçoca (triturada com farinha de mandioca), desfiada ou partida em pedaços e frita, servida com cebola e mandioca cozida ou frita.

A carne de boi fresca está muito presente na cozinha mineira contemporânea, mas demorou um século para substituir o costume de se consumir, preferencialmente, carne de frango e de porco, que ainda predominam nos pratos tradicionais.

Nas casas mineiras, a era da escassez deixou marcas profundas. Mesmo com o advento das geladeiras e freezers que trouxeram eficiência na conservação dos alimentos, o costume de se consumir os alimentos cozidos ainda predomina, juntamente com o do aproveitamento de tudo, inclusive das sobras, gerando composições igualmente saborosas.

Farofas e sopas aproveitam sobras de carnes, de legumes e verduras. O mexido, mistura de tudo que sobrou, terminado com farinha de mandioca e pimenta era comido na primeira refeição da manhã, antes da saída para o trabalho nas roças. Esse prato perdura até hoje, não sendo consumido mais pela manhã, mas ao jantar. Nas madrugadas da capital mineira, muitos restaurantes ou botecos mais populares ainda o servem.

A maior referência da cozinha de Minas, dentro e fora do Brasil, é D. Lucinha, proprietária do restaurante do mesmo nome. Falecida em abril de 2019, ela se dedicou a fazer, compreender e preservar a cozinha de origem, aquela forjada lá no século XVII.

 A importância da doçaria na gastronomia mineira

“…E, de sobremesa, goiabada com queijo”. Queijo Minas artesanal, claro!

Os doces ocupam lugar de destaque na gastronomia mineira. Como vimos na parte sobre as origens da gastronomia mineira, eles têm origem no século XVII, na cozinha de fundo de quintal. Quando os portugueses introduziram o açúcar e o costume de fazer doces em calda com as frutas disponíveis, nasceu a paixão dos mineiros pelos doces, preferíveis às frutas in natura. 

Doce de frutas em compota figo inteiro
Doces de frutas em compota – figo inteiro
Doce de frutas em compota cidra ralada
Doces de frutas em compota – cidra ralada

Esse modo de fazer os doces foi se aprimorando à medida em que as características do “ser mineiro” foram se moldando, em especial, a hospitalidade. Os doces tradicionais mineiros fazem parte dessa hospitalidade.  Até hoje, consideramos um doce decorado e cristalizado um sinal de carinho e atenção com a pessoa a ser mimoseada. Em Minas, oferece-se o que se tem de melhor! O mineiro tem a fama de ser pão duro, mas não na comida!

Doces de frutas cristalizados
Doces de frutas cristalizados
Os doces cristalizados, assim chamados por lembrarem o brilho do cristal, vieram após os mineiros dominarem o ”modo de fazer” dos doces em compota.

Vamos dizer que é um aprimoramento dos primeiros. A calda de açúcar é batida até atingir o ponto exato exigido, cobrindo o doce e dando uma aparência vitrificada e brilhante. As principais frutas utilizadas para os doces cristalizados são a laranja da terra, o mamão verde, o limão, a abóbora, o figo e o abacaxi. Elas devem estar no ponto certo de maturação para que se obtenha o melhor resultado, por isso, usa-se sempre as frutas da estação. Algumas frutas, como o mamão verde e a abóbora, são bordadas, isto é, trabalhadas com esculturas, textos ou letras antes de serem cozidas e cristalizadas. Essa técnica é especialmente cultivada em Carmo do Rio Claro/MG, e difere totalmente da doçaria colonial brasileira em geral.

Com a fartura existente no decorrer do século XIX, houve uma diversificação na doceria mineira. A introdução do queijo na sobremesa passou a pedir doces de frutas em pasta e em barra. A goiabada é o mais famoso dos doces em barra mineiros, mas são muito apreciadas também a bananada e a mangada.

gastronomia mineira - Goiabada com queijo Minas artesanal
Goiabada em barra servida com queijo Minas artesanal
Tradicionalmente, os doces de fruta mineiros são feitos em tachos de cobre.

Além da conservação da cor das frutas, o cobre permite a distribuição uniforme do calor pelo tacho, aquecendo mais rapidamente e facilitando o derretimento do açúcar. A substituição desse utensílio conforme quer a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) viria alterar esse modo de “fazer” secular. A alegação é de o azinhavre, causado por uma oxidação de cor esverdeada que se forma em objetos de cobre, pode causar danos à saúde. Entretanto, conforme argumentam as doceiras artesanais, o azinhavre é eliminado através da limpeza adequada das peças de cobre. Elas utilizam, com poucas variações, uma receita caseira para limpeza com limão, palha de aço e sabão em barra. Nesse embate, considera-se em risco a produção artesanal dos doces mineiros.

A figura a seguir mostra a produção da goiabada em pasta, cremosa, no tacho de cobre, no fundo de um quintal, num fogão a lenha improvisado. O doce espirra muito durante seu cozimento e suja as cozinhas, por isso ele é feito nos quintais.

gastronomia mineira goiabada cremosa
Goiabada cremosa em tacho de cobre

Com a abundância do leite e dos ovos, surgiram novas opções para a doceria mineira: surgiu o doce de leite em suas várias versões, cremosa, em barra, em embalagens de palha de milho e, juntamente com uma boa quantidade de ovos, também a deliciosa ambrosia. 

gastronomia mineira - Doce de leite cremoso
Doce de leite cremoso
Doce de leite na palha de milho
Doce de leite na palha de milho
gastronomia mineira - Ambrosia
Ambrosia

A presença das quitandas na gastronomia mineira

Foi com a abundância de leite e ovos que as quitandas mineiras floresceram. O uso do milho e da mandioca continuou porque, na época, a farinha de trigo ainda era cara e ruim. Nos anos 50 do século XX, o pãozinho francês, tal como o conhecemos, era horrível, principalmente nas cidades pequenas.

A figura a seguir mostra a composição de uma mesa de café da manhã, ou merenda, na cozinha que, como já foi dito, é sempre grande. As visitas mais chegadas eram também recebidas ali.

gastronomia mineira - café da manhã ou da tarde

Ao fundo, um fogão de lenha aceso. Na mesa um bule de café coado, açúcar, manteiga, queijo fresco, uma cesta com broinhas de fubá de canjica e pão de queijo e uma broa de milho, também com queijo. 

A quitandas mineiras, bem representam o “saber fazer” da gastronomia mineira. Ainda hoje, no interior do estado, são utilizados para o seu preparo utensílios que pertencem à identidade do “ser mineiro”: o fogão à lenha, as gamelas de madeira e os fornos de barro no fundo dos quintais.

As quitandeiras de hoje são filhas e netas das mulheres do final do século XIX e início do século XX que faziam as quitandas apenas para o consumo doméstico. As famílias eram muito numerosas. O relato de Mariza Figueiredo Martins bem ilustra isso:

“Eu me lembro bem de quando ajudava minha mãe a fazer as quitandas da semana. Havia no terreiro, ao lado da cozinha, um forno a lenha bem grande feito de barro. O dia de acendê-lo começava cedo. Na roça é assim, as coisas começam bem cedinho mesmo, antes do sol se levantar…

Minha mãe sempre assoberbada com tantas obrigações, inclusive fornecer almoço para algum camarada de meu pai (era assim que se chamavam os empregados na roça), chegava e colocava fogo para queimar a lenha e esquentar o forno. Enquanto isso ia amassando os biscoitos, roscas e broas que seriam alimento para a semana toda. E a operação de esquentar o forno se repetia algumas vezes ao longo do dia, até estarem as latas cheias. As quitandas saíam do forno e já havia uma fila de crianças dispostas a devorar tudo que lhes fosse permitido. Treze filhos! A freguesia era grande! Biscoitos de polvilho, de farinha, crocantes, roscas doces, macias, coradas ao açúcar, boas de queijo cheirosas, fumegantes. Tudo, claro, regado ao leite gordo, “daquela” vaca escolhida a dedo por meu pai, sempre tão zeloso com os filhos.”

(Extrato da crônica publicada pela autora, no Facebook, na página Pão de Poesia, em 10/05/2015.)

Hoje em dia, as quitandeiras tradicionais das pequenas cidades do interior vendem suas quitandas por encomenda porque a durabilidade delas é pequena. Mesmo nas cidades maiores, filhas e netas das mulheres da primeira metade do século XX gostam de fazer quitandas. Fazem por gosto e não mais utilizam os utensílios originais. A autora citada acima, por exemplo, faz quitandas por hobby. Entretanto, com a entrada da mulher no mercado de trabalho e as facilidades de se adquirir esses produtos em padarias e supermercados, esse costume tende a desaparecer.

O pão de queijo é a mais conhecida das quitandas mineiras. Os ingredientes da receita tradicional são polvilho, ovos, gordura, água e leite. É apreciado quando assado na hora de servir. Hoje em dia, há a possibilidade de conservá-los pelo frio. A massa é congelada crua e já em formato de pequenas bolas.

pão de queijo
Pão de queijo
A broa de fubá com queijo forma um par perfeito com um cafezinho coado fresco!
Broa de fubá com queijo
Broa de fubá com queijo – Fotografia: Mariza Figueiredo Martins

As broinhas de fubá de canjica com queijo são uma paixão! Indescritível seu sabor, mas, um conselho: não compre em padarias. Você precisa experimentar as que são feitas por uma quitandeira tradicional. A massa não pode ser feita com fubá comprado em supermercado. Não dá certo!  O fubá de canjica é moído em moinho d’água. Não é fácil encontrá-lo nas grandes cidades.

Broinha de fubá de canjica com queijo
Broinha de fubá de canjica com queijo – Fotografia: Mariza Figueiredo Martins

No século XIX outros ingredientes foram introduzidos nas receitas de biscoitos e sequilhos: o amido de milho e a araruta. A araruta é uma erva cujo rizoma, caule subterrâneo, tem fécula branca alimentícia. Não contem glúten. É originária da América do Sul, mas encontra-se hoje quase em processo de extinção. Veja foto de uma brevidade feita com araruta.

Brevidade de amido de araruta
Brevidade de amido de araruta
De amido de milho
De amido de milho
Brevidade de amido de polvilho
Brevidade de amido de polvilho

Comercialização dos produtos tradicionais da gastronomia mineira

A gastronomia mineira vem “do fundo do quintal”. Ela é tradicional e artesanal, sem conservantes ou aditivos, por isso muitos dos produtos típicos só podem ser degustados em Minas. É o caso das broinhas de fubá de canjica, por exemplo. A durabilidade delas é pequena. E são feitas em pequena quantidade e comercializadas por encomenda. O queijo Minas artesanal só recentemente conseguiu ser comercializado fora do estado, mas com muitas restrições no modo de fazer e nos utensílios utilizados. Os produtores continuam lutando para preservar seus sabores, saberes e fazeres.

A doçaria produzida de forma tradicional já utiliza formas de conservação em vidros ou latas, que facilitam sua comercialização e têm boa saída no mercado nacional.

O café, produto de exportação desde sempre, não tem problemas de comercialização. Os herdeiros dos grandes cafeicultores exportadores de café em grão cru, entretanto, têm se dedicado a produzir e abrir o mercado nacional para os cafés especiais e gourmets, já em alta no mercado internacional há décadas. Esses, sim, têm produção quase toda artesanal e só é comercializado depois de processado.

Destaca-se a comercialização da carne de lata. Como descrito anteriormente, a carne de lata é conservada através de um processo totalmente artesanal. Em geral, essa carne é vendida a granel em alguns restaurantes de beira de estradas estaduais. Mas já se encontram embalagens em latas de 1 kg ou 3kg, prontas para vender.

A valorização dos produtos artesanais sem conservantes e sem aditivos tem sido cada vez mais disseminada no Brasil, seguindo tendência internacional. As pessoas vão em busca desse diferencial que lhes garante melhores condições de vida saudável. Dificilmente são encontrados em supermercados. É um tipo de produto que costuma ser colocado em prateleiras de empórios gourmet, vendido em feirinhas gastronômicas, através de clubes de assinaturas ou pela Internet, direto pelo produtor. Os preços não são menores que o dos produtos industrializados, conforme muitos pensam. O custo do trabalho é alto. Os produtos são feitos um a um. Não há linha de produção em escala.

kit-gourmet-faviconMinas Gerais é um tesouro gastronômico! Foi o que motivou o lançamento, em 2019 da Kit Gourmet, clube de assinaturas que pretende “desbravar” esse tesouro para seus assinantes! A curadoria é feita pela Chef Bárbara Campos, proprietária da Provençal Gourmet que, como produtora artesanal, participa da maioria das feirinhas gastronômicas de Belo Horizonte. É nessas feirinhas que ela descobre tesouros sem preço! São pequenos produtores que, em geral, não têm outra forma de comercializar suas delícias. Problemas de higiene? De jeito nenhum. A ANVISA está sempre vigilante quanto aos aspectos sanitários, tanto nas feirinhas quanto nos ambientes de produção.

Os assinantes da Kit Gourmet recebem todo mês uma caixa com quatro ou cinco produtos de diversos pequenos produtores artesanais.

E mais: recebem um mimo exclusivo de utensílios utilizados na cozinha mineira tradicional, preferencialmente fabricado de forma artesanal. Essa forma de comercialização através de clubes de assinaturas, por ser mais ágil, permite a inclusão de produtos de validade mais curta, como algumas quitandas ou doces de frutas cristalizadas. Mas, o maior valor da Kit Gourmet está na curadoria dos produtos. A seleção é feita por quem entende! Por quem tem paixão pelos produtos artesanais mineiros. Vamos experimentar? Se não gostar, é só cancelar!

Você gostou das informações trazidas neste post? Ele fez entender onde está o diferencial da gastronomia mineira em relação às cozinhas de outras regiões brasileiras? Queremos saber sua opinião. Comente, critique, dê sugestões para as próximas pautas! Se gostou, encaminhe para seus familiares e amigos. A Kit Gourmet agradece!

2 comentários em “Você sabe o que a gastronomia mineira tem de especial?”

  1. Mariza Figueiredo Martins

    Que maravilha de matéria, Bárbara! Está de parabéns! Uma beleza de compilação inteligente e de fato representativa da culinária mineira. Muitas informações colocadas com eficiência,e elegância! Brilhou!

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